sexta-feira, 2 de maio de 2008

Estudo sobre os sistemas de gestão de bibliotecas

Foi divulgado no início da semana um novo estudo sobre os sistemas de gestão de bibliotecas (LMS - Library Management Systems) no Reino Unido. Promovido pelo JISC e pelo SCONUL pode ser lido/descarregado aqui.

Ainda não tive oportunidade (e desconfio que nunca terei) para ler as suas 157 páginas. Mas já li o Sumário Executivo (7 páginas) o Resumo do Relatório (10 páginas) e algumas outras páginas na diagonal. Li ainda o Briefing Paper intitulado Library Management Systems: investing wisely in a period of disruptive change, que aparentemente já tinha sido publicado há duas semanas.

O estudo apresenta 3 conclusões gerais e aponta algumas recomendações-chave para as bibliotecas. As principais conclusões são que o mercado inglês é maduro e dominado por quatro vendedores (ExLibris, Innovative, SirsiDynix and Talis) que têm cerca de 90% de quota de mercado, que o OPAC tradicional será cada vez mais posto em causa e os LMS podem ficar confinados às operações de "backoffice", e que as respostas tecnológicas passam pelo desenvolvimento de interfaces abertos dentro da arquitectura Service Oriented Architecture e pelo desenvolvimento de modelos da Web 2.0.

Quanto às recomendações, permito-me destacar a afirmação de que poderá não ser boa ideia investir na aquisição de um novo sistema de gestão de bibliotecas, mas que é ainda pior não fazer/mudar nada. Assim, em vez de mudar de sistema, as bibliotecas podem e devem investir em renegociar os contratos de manutenção actuais, e aumentar o valor que pode ser produzido pelo LMS, promovendo a interoperabilidade e a integração dos LMS com/nos outros sistemas das universidades.

O estudo não aprofunda a questão do futuro das bibliotecas universitárias, mas não deixa de referir que essa é uma questão importante, uma vez que vivemos num período de transição e incerteza quanto à configuração das bibliotecas no contexto das universidades nas próximas décadas. É óbvio que aquilo que devemos querer, e fazer acontecer, nos sistemas de gestão das bibliotecas está dependente do que serão essas bibliotecas, e do tipo de serviços que devem oferecer.

Este estudo aborda outra questão que, em minha opinião, é de grande relevância. A utilização dos serviços das bibliotecas (os OPACs, os portais de pesquisa ou o acesso a serviços/produtos externos através de páginas das bibliotecas) produz um conjunto de dados que as bibliotecas não estão a aproveitar adequadamente.

De facto, não estamos verdadeiramente a "ouvir" o que dizem os nossos clientes. Para além de dados globais de uso (acessos, sessões, pesquisas, downloads,para além dos empréstimos, entradas/saídas nas instalações e outras métricas de uso "físico"), que geralmente recolhemos para os relatórios de actividades, e que muitas vezes nem têm grande significado, não estamos a tentar saber mais nada sobre a forma como os nossos utentes usam os recursos que lhes disponibilizamos.

Analisar e aproveitar os milhões de "cliques" que os utentes produzem nos nossos sistemas (como a Amazon e o Google fazem de forma brilhante), bem como a informação contextual relevante (como os departamentos/cursos/disciplinas a que os utentes estão ligados) que em muitos casos já possuimos, para criar e oferecer serviços de valor acrescentado - como serviços personalizados, serviços de recomendação, redes sociais, etc. - é certamente um caminho a explorar.

Ligar tudo isto com os motores de pesquisa (que temos de transformar em aliados, pois a alternativa não é nada favorável...) e a designada "pesquisa vertical" é um desafio adicional.

Ameaças ou oportunidades no horizonte? O tempo dirá, mas as oportunidades exigem que as aproveitemos desde já!

3 comentários:

Pedro Príncipe disse...

Excelente dica esta... vou ver se consigo ler algo deste relatório já que as questões em torno dos SIGB foram desde sempre de particular atenção para mim.
A primeira reacção que tenho à notícia deste estudo é: para quando um sobre a realidade portuguesa. Seria bom para podermos dar todos o salto, exigir mais dos fornecedores, gerar mais integração de serviços e de sistemas, fazer "ouvir mais a voz" dos que os utilizam.
Em segundo lugar, testemunhar um exercício interessante que tenho feito relativamente à ideia de "respostas tecnológicas passam pelo desenvolvimento de interfaces abertos dentro da arquitectura Service Oriented Architecture e pelo desenvolvimento de modelos da Web 2.0." - tenho procurado acompanhar o desenvolvimento dos Sistemas open source de gestão de bibliotecas e testemunho que alguns respondem com grande celeridade aos pedidos de integração de serviços de modelos web 2.0 (comentar registos, listas de favoritos, bibliotecas pessoais, etc.), vejam por exemplo os desenvolvimentos do KOHA.
Um terceiro e último comentário é relativo ao aproveitamento dos dados dos OPAC's. Concordando com o que o cibertecário aqui diz sobre não se estar tirar o devido proveito dos dados que ficam registados da navegação pelos opac's, mas vale a pena também referir um outro desaproveitamento, que designo que "não capitalização da informação bibliográfico" que é a base dos opac's. Refiro-me, por exemplo, à não integração dos registos noutros serviços bibliográficos a partir de feeds, a não integração dos registos nas páginas web institucionais. Por exemplo: os registos de bibliografia dos docentes das universidades nas suas páginas institucionais no site da universidade; bibliografia dos fundos locais das bibliotecas municipais em páginas temáticas nos sites das câmaras... claro, tudo isto de modo dinâmico, de actualização automática, ligação directa ao catálogo)… a isto chamo capitalizar recursos do catálogo, criando mais ponto de acesso à informação.
Obrigado por esta informação... e isto a blogosfera!

Eloy Rodrigues disse...

Concordo em absoluto com o comentário sobre o desaproveitamento das possibilidades de integração, e de re-utilização noutros contextos e sob outros formatos, da informação existentes nas nossas bases de dados bibliográficas/OPACS.

Outra questão que fica a germinar é a do estudo da situação portuguesa, e de uma análise comparativa entre os vários sistemas comerciais e as soluções Open Source (confesso que não tenho tido oportunidade para analisar a oferta no mercado comercial e OS). Pode ser que ainda consigamos produzir algum esforço cooperatvo neste domínio.

subtilezas disse...

não só disponibiliza o estudo, como faz uma interessante análise. vou linkar este blog. vai me ser muito útil. obigada pela partilha.

 
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